Acne – Ajude-me doutora!

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Formada pela UNIFESP, com título de especialista em Dermatologia e membro da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia) e da AAD (American Academy of Dermatology), a Dra Érica Monteiro escreve regularmente para o Dermatologia.
informações de contato da Dra. Érica Monteiro

Queridos pacientes e internautas

Recebo dezenas de e-mails todos os dias e acabo não conseguindo responder tudo. As perguntas mais frequentes desse mês foram sobre acne. Aqui vão algumas informações sobre o tema. Lembre-se de que o texto é meramente informativo e não substitui avaliação e prescrição médica.

Boa leitura


INTRODUÇÃO

A acne é um doença extremamente comum afetando quase 80% de adolescentes e adultos jovens entre 11 a 30 anos. Sabe-se que dois terços dos pacientes com acne apresentam curso auto-limitado, no entanto outros casos requerem atenção e tratamento por tempo prolongado para evitar a evolução para formas graves da acne com cicatrizes permanentes. Portanto, atualmente entende-se a acne como doença crônica e não apenas uma doença auto-limitada da adolescência. Dentre as características usadas para definir a cronicidade da acne, destacam-se: curso prolongado, padrão de recorrência e remissão, manifestação de surtos agudos ou início insidioso e impacto psico-social que afete a qualidade de vida dos pacientes. Não há consenso sobre quais pacientes desenvolverão curso crônico da doença e fatores que já foram relacionados à cronicidade são: produção de andrógenos adrenais relacionados ao estresse, colonização pelo Propionebacterium acnes, antecedentes familiares, subtipos específicos de acne (conglobata, queloidiana, inversa, androgênica).

FISIOPATOLOGIA

A fisiopatologia da acne tem 4 fatores primários que interagem de modo complexo: 1- hiperqueratinização folicular, 2- aumento da produção sebácea, 3- colonização bacteriana, 4- resposta imunológica e inflamatória.

Classificação

Não há consenso quanto à padronização de um sistema de graduação da acne. Simplificadamente podemos classificar em:

1.    Acne comedoniana ou não inflamatória: as lesões predominantes são comedões que podem ser abertos ou fechados, geralmente ambos estão presentes.

2.    Acne pápulo-pustulosa: predominam lesões inflamatórias, pápulo-pústulosas, com comedões. É graduada em leve, moderada ou grave.

3.    Acne nódulo-cística: presença de nódulos e lesões císticas, além de comedões, pápulas e pústulas. Divide-se em moderada e grave.

4.    Acne Conglobata: constitui uma forma grave de acne, em que ao quadro anterior, associam-se nódulos purulentos numerosos e grandes, formando abscessos e fístulas que drenam pus.

A acne fulminante é classificada à parte. Trata-se de forma rara em nosso meio, na qual, associado às formas de acne nódulo-cística ou conglobata, surge subitamente febre, leucocitose, poliartralgia, queda do estado geral.

TRATAMENTO

Atualmente recomenda-se o tratamento precoce para minimizar os danos psicológicos e físicos (cicatrizes, hiperpigmentação, dentre outros).

A melhor compreensão da fisiopatologia da acne permitiu abordagem terapêutica mais adequada do paciente, de modo a introduzir precocemente “terapias combinadas” no manejo da acne. A terapia combinada consiste na utilização concomitante de agentes terapêuticos de classes diferentes, com isso tem-se ação sobre o maior número possível de fatores fisiopatológicos.

Tratamento tópico:

1. Agentes de limpeza: removem o excesso de sebo da pele; há no mercado uma variedade de sabões, loções, soluções e géis a base de ácido salicílico, enxofre.

A higiene não deve ser exagerada, pois pode provocar efeito rebote da secreção do sebo, além de irritar a pele.

2. Retinóides:

Os retinóides tópicos têm ação anticomedoniana; são úteis em todas as formas de acne; em monoterapia ou em associação com outros princípios ativos.

A maioria dos pacientes com acne beneficia-se do uso dos retinóides, pois estes agem no microcomedão, que é o precursor de todas as outras lesões da acne.

3. Peróxido de benzoíla:

O peróxido de benzoíla (BPO) é agente antimicrobiano tópico com ação bactericida e que destrói  bactérias  mais rapidamente e de modo mais potente que muitos antibióticos.

Em geral é seguro e eficaz e mantém sua eficácia por vários anos de uso. Disponível em formulações variadas (wash, gel).

4. Ácido azeláico: útil na acne pápulo-pustulosa leve.

5. Antibióticos tópicos: apresentações comuns de antibióticos tópicos para tratamento da acne são a eritromicina e a clindamicina, em solução e gel, para lesões inflamatórias.

Não se deve usar antibiótico sem prescrição e acompanhamento médico!

6. Ácido salicílico: ação comedolítica; concentrações variáveis em produtos de limpeza e hidratantes.

Tratamento sistêmico:

1. Antibióticos orais: para acne inflamatória moderada a grave.

RESISTÊNCIA BACTERIANA

A resistência bacteriana tornou-se problema de saúde pública mundialmente  e surgem após uso apropriado ou inadequado de antibióticos.

Não usar antibiótico sem prescrição e acompanhamento médico.

2- ISOTRETINOÍNA ORAL

A isotretinoína – ácido 13-cis-retinóico é um análogo da vitamina A, que atua nos receptores nucleares de retinóides. Normaliza o processo que queratinização folicular, inibe a sebogênese e induz a apoptose dos sebócitos. Indiretamente reduz a população de P. acnes, além de ter ação anti-inflamatória. Único que possibilita a cura, melhorando a qualidade de vida e prevenindo o aparecimento de cicatrizes permanentes.

Indicações: acne inflamatória resistente à terapêutica convencional, acne cística, acne fulminante, acne com progressão para cicatrizes ou estresse psicológico associado.

Contra-indicações: Gravidez, lactação, hipertensão intracraniana, hipervitaminose A, insuficiência hepática, lipídeos sanguíneos excessivamente elevados.

A isotretinoína oral só é prescrita sob acompanhamento médico!

Cura e recidiva

A isotretinoína possibilita a cura definitiva em 70-80% dos casos após o primeiro tratamento, melhorando a qualidade de vida e a auto-estima dos pacientes. Além disto, a limitação da duração da acne com um tratamento que propicia remissão prolongada previne o aparecimento de cicatrizes permanentes. Os casos onde pode ocorrer recidiva da acne ou falha terapêutica podem estar ligados a alterações hormonais, pacientes jovens do sexo masculino com acne grave, pacientes que apresentam inúmeros macrocomedões ao final do tratamento.

3- TRATAMENTO HORMONAL

Constitui excelente opção para mulheres, principalmente se a contracepção é desejável. São indicações clínicas: SOP (Síndrome dos ovários policísticos), acne persistente na mulher adulta, acne resistente à terapêutica convencional, mesmo nas pacientes com níveis séricos androgênicos normais.

Tratamentos com luz, outras tecnologias e terapia fotodinâmica

Recentemente surgiram tecnologias baseadas em luz para tratamento de acne ativa. O mecanismo de ação tem 2 alvos primários: 1)redução do Propionebacterium acnes,  2) interferência na função da glândula sebácea.

A radiofrequência, fototerapia (luz azul), laser são úteis como tratamento complementar.

DIETA E ACNE

A percepção dos pacientes com relação a piora da acne relacionada a ingestão de certos alimentos é antiga e frequente nos consultórios de dermatologia, as revisões publicadas até 2005 não mostravam uma relação conclusiva. A partir de 2009, revisões avaliaram as publicações existentes na literatura com relação a dieta e o aparecimento da acne e apontam para relação com o consumo de laticínios e de alimentos com alto índice glicêmico no aumento do risco para acne.

TRATAMENTOS COMPLEMENTARES

Existem várias intervenções terapêuticas que podem ser realizadas em conjunto com o tratamento medicamentoso da acne, destacam-se as seguintes:

– Extração manual de comedões (limpeza de pele, somente com  técnico capacitado).

– Punção ou drenagem de pústulas, nódulos e pseudocistos.

– Infiltração intralesional com corticoesteróides em nódulos, pseudocistos e cicatrizes hipertróficas.

– Tratamento das cicatrizes: difícil; exige combinação de técnicas: peelings químicos, dermabrasão, laser, excisões cirúrgicas, subincisão, preenchimento cutâneo, dentre outros.

– Tratamento das hipercromias pós-inflamatórias: agentes clareadores e peelings químicos

– Camuflagem: uso de maquiagem para camuflar as lesões, durante o tratamento, visando melhorar a auto-estima e diminuir a manipulação das lesões.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A acne é uma dermatose de alta prevalência, especialmente em adolescentes e adultos jovens. Acomete homens e mulheres, geralmente os homens são afetados pelas formas mais graves da acne. Diversas opções terapêuticas

estão disponíveis, desde os esfoliantes, antibióticos tópicos e sistêmicos até a

isotretinoína sistêmica. A opção terapêutica depende da forma clínica da acne,

sua gravidade e algumas características individuais, como adesão ao tratamento. O tratamento da acne poderá ser tópico isoladamente, somente sistêmico, concomitantemente tópico e sistêmico e, ainda, todas as opções anteriores podem ser associadas aos tratamentos complementares como: peelings físicos e/ou químicos e tratamentos com luzes, dentre outros.

O tratamento costuma ser de longa duração, deve ter acompanhamento médico e deve visar ação em todos os fatores envolvidos na fisiopatogenia da doença.

Dra. Érica Monteiro – Dermatologista

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Formada pela UNIFESP, com título de especialista em Dermatologia e membro da SBD (Sociedade Brasileira de Dermatologia) e da AAD (American Academy of Dermatology), a Dra Érica Monteiro escreve regularmente para o Dermatologia.
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2 Comentário

Marcelo

Tenho acne há muito tempo, e que deixaram cicatrizes profundas principalmente na região da bochecha. Tentei de tudo, de cosméticos a medicamentos receitados por dermatologistas e nada funcionou. Iniciei o tratamento com isotrtinoína há mais ou menos 3 semanas e já se pode ver resultados animadores. Minha pele que era muito oleosa já não está mais. Praticamente a acne já acabou e a vermelhidão de grande parte do meu rosto diminuiu bastante. Nos primeiros dias tive apenas uma leve dor de cabeça. Agora não tenho mais. Estou muito contente com os resultados até o momento.